fbpx

Encontro Sepal Online 2020 | Servindo Pastores e Líderes | 24 a 26 de setembro

Qual é a relevância das reflexões de Bauman para a igreja evangélica brasileira?

Por Phelipe Reis

Teoria dos relacionamentos líquidos, individualismo pós-moderno e crítica ao consumismo. Estas são algumas das principais questões presentes nas reflexões do sociólogo e filósofo polonês Zigmunt Bauman (1925 – 2017). Autor de mais de cinquenta obras, Bauman é considerado uma das vozes mais críticas da sociedade pós-moderna. Para ele, a grande questão da humanidade diz respeito ao consumo – “eu só sou, se eu consumir”.

Como essa crítica ao consumo, ao individualismo e à efemeridade dos relacionamentos, articuladas por Bauman, podem ajudar líderes e pastores na leitura da sociedade ao seu redor? Como o evangelho e a igreja dialogam com essas questões e em que medida há aproximações e distanciamentos entre a mensagem do evangelho e os apontamentos baumanianos?

A partir deste pano de fundo, conversamos com Ivanice Cardoso e Guilherme de Carvalho, palestrantes do Encontro Sepal 2020, que tem como tema “Vida na Vida: na contramão dos relacionamentos líquidos”. Os palestrantes falam sobre suas expectativas para o Encontro e os desafios da “modernidade líquida” para a igreja.

“O Encontro Sepal 2020 acontece num momento muito importante da história da sociedade e da igreja”, comenta Ivanice Cardoso, advogada e especialista em direito de imagem e segurança no ambiente digital. Para ela, além de demonstrar um espaço democrático e inclusivo, o evento transpõe barreiras geográficas e de agendas ministeriais.

De acordo com Guilherme de Carvalho, teólogo, pastor e diretor do L’abri Fellowship Brasil, a igreja tem diante de si um grande desafio e, além do esforço individual de cada líder e pastor, é necessário um empenho coletivo para refletir acerca das práticas pastorais e da missão da igreja.

Ivanice Cardoso e Guilherme de Carvalho falarão no segundo dia de programação do Encontro Sepal 2020. Clique aqui para conferir a programação completa e fazer sua inscrição no evento. Leia a seguir uma breve entrevista com os dois palestrantes.

Qual a sua expectativa para o evento?

Ivanice Cardoso – Esse evento tem um significado muito especial. A Sepal transpondo barreiras novamente e explorando as ferramentas que estão à disposição do Reino. Eu vejo esse evento como muito democrático e inclusivo, transpondo barreiras geográficas e de agendas ministeriais. Ele acontece num momento muito importante da nossa história como sociedade e também como igreja. Eu tenho uma grande satisfação em poder participar de um evento desse porte e uma honra em poder servir a igreja brasileira representada ali.

Guilherme de Carvalho – Espero uma oportunidade para refletir pastoralmente e coletivamente sobre a situação em que vivemos hoje como igreja e como país. Cada igreja e líder tem feito seu esforço pessoal, mas o desafio é muito grande. É preciso pensar como igreja, e espero que o evento seja um passo nessa direção.

Qual a relevância de Zigmund Bauman e suas reflexões para a igreja contemporânea?

Ivanice Cardoso – Acho que demoramos para nos debruçar sobre a relevância do que Bauman traz. Não só sobre a teoria dos relacionamentos líquidos, mas também sobre a visão ética do indivíduo pós-moderno sobre si e os impactos na vida social. Cada vez que Bauman cita os efeitos negativos da individualização, ele reforça o coletivo. E nós, como igreja de Cristo, sabemos que quando nos individualizamos, nos isolamos, não crescemos. Essa chamada, esse aviso de que nos tornamos uma sociedade individualista e narcisista, não foi ouvida pela igreja dos nossos dias e acabou criando padrões para a própria igreja. Na vida digital, que é minha área de estudo, esses padrões e seus efeitos são mais visíveis.

Guilherme de Carvalho – A aplicação do evangelho demanda compreensão da realidade, e Bauman nos ajuda a compreender alguns dos efeitos da modernidade sobre as pessoas, a vida comunitária e a igreja; especificamente, a dissolução da experiência de pertencimento e os suportes comunitários da subjetividade – temas discutidos por outros nomes influentes hoje, Taylor, Lipovetsky e Deenen.

De que forma você percebe o conceito de “liquidez” presente na cultura da igreja brasileira?

Ivanice Cardoso – Uma igreja que espera mais ser servida do que servir. Esse é o meu resumo sobre os efeitos da liquidez dos comportamentos que Bauman menciona. Se não me contenta, eu não quero. Se não tenho minhas necessidades atendidas, busco outro grupo. Se eu não encontro minha benção, vou atrás de uma oração mais forte. Chegamos num ponto de narcisismo e inconstância tão grandes que já falamos hoje sobre ensino ministerial personalizado. Ou seja, se o coletivo não funciona, individualizamos tudo. Várias soluções e, também, tecnologias influenciam essa leitura. Mas cabe a igreja e sua liderança identificar uma onda contemporânea que vale ser incorporada à nossa vida como comunidade de fé e quando essa onda pode se tornar um tsunami que enfraquece a essência da igreja.

Guilherme de Carvalho – O processo de dissolução do nexo social e atomização da subjetividade é um sentido o processo não é diferente, no Brasil, do que ocorre em outros países fenômeno ocidental, ligado ao capitalismo, ao liberalismo e, em última análise, ao princípio emancipacionista moderno, que hoje está globalizado. Nesse na Europa e nas Américas. A diferença está em alguns impactos locais, que são acentuados por fragilidades sociais, econômicas e culturais do Brasil.

Como o evangelho pode responder aos desafios da modernidade líquida?

Ivanice Cardoso – Eu penso que o primeiro passo é nós nos lembrarmos do que é o evangelho. Ele é boa nova, em todo tempo. Em tempos bicudos, em tempos de guerras, em tempos de paz. O evangelho não precisa de um motivo para ser resposta. Ele é resposta para a nossa condição humana. Acho que quando alimentamos nossa mente e nosso espírito nessa verdade, orientamos nossa vida e nossos passos, independente do momento em que vivemos. Para mim, a maior beleza do evangelho é saber que Deus me vê indivíduo e me deseja no coletivo. Mas, à medida que a igreja passa a louvar só o indivíduo, o humano, se apressando em atendê-lo pontualmente em suas ansiedades, necessidades e incapacidades, mas não em nutrir a sua alma para que ela reconheça Deus na sua soberania e grandeza, ela se perde da essência de ser igreja evangélica. Foi assim nas últimas décadas, quando como igreja abraçamos causas que não estão conexas biblicamente. E nesse momento muitas dessas verdades estão sendo divulgadas massivamente com o poder da internet, enganando quem é igreja e quem vê a igreja.

Guilherme de Carvalho – Para responder a esse fenômeno, é preciso responder ao princípio moderno movendo as pessoas de uma forma de subjetividade narcisista, atemporal e auto expressiva para uma subjetividade comunicativa, histórica e comunitária, segundo o modelo do evangelho. Além disso, é preciso promover um modelo cívico centrado, não no reconhecimento dos indivíduos, mas no bem comum.

_________

Phelipe Reis é jornalista e colaborador de conteúdo do Encontro Sepal 2020.

Sepal | Servindo Pastores e Líderes | Direitos Reservados | Site Design: Renanyosh Design